Horizontes para o milho

Finda a colheita de grãos no Centro-Sul, os agricultores estão, nesse momento, debruçados sobre o planejamento da próxima safra de verão. Em sua decisão de plantio, o produtor procura levar em conta variáveis como a projeção de consumo no cenário interno, perspectivas dos mercados internacionais das commodities agrícolas, sinalização do comportamento das taxas de juros e da política cambial. Os produtores de grãos, entretanto, devem considerar um fato novo nesse planejamento: o esforço das empresas e entidades que integram a Associação Brasileira das Indústrias Moageiras de Milho (Abimilho) para promover o aumento do consumo humano do cereal.

Essa iniciativa foi deflagrada com o lançamento da campanha "Milho é Melhor", que trata de sensibilizar o consumidor para os atributos nutricionais do milho. Cerca de R$ 2 milhões estão sendo investidos na iniciativa, que contempla a veiculação de anúncios em publicações dirigidas e especializadas, a realização de atividades educativas com alunos do ensino fundamental e a promoção de cursos de culinária. Com isso, a Abimilho pretende aumentar o consumo humano do cereal dos atuais 4,2 milhões de toneladas para cerca de 5 milhões de toneladas, um incremento de 20%. É uma meta factível, considerando-se a média brasileira de consumo per capita em comparação à de outros países, de condições sócio-econômicas similares. É o caso do México, que tem média de consumo de 63 quilos/habitante/ano, ou 3,5 vezes mais do que a média brasileira, que gira em torno de 18 quilos/habitante/ano.

Há, portanto, muito espaço para crescer, principalmente se levarmos em conta o desenvolvimento de novos produtos à base de milho, práticos e ricos em nutrientes, vitaminas e fibras, como cereais matinais, óleos, farinhas e processados. Pois o decorrente aumento da demanda por novos e mais sofisticados produtos derivados de milho descortina promissoras oportunidades de negócio para o agricultor decidido a diversificar sua receita e agregar valor à produção. O incremento da demanda por derivados de milho vai deflagrar correspondente impacto sobre os preços dos produtos focados neste segmento: o de grãos duros ou semi-duros, de apurada qualidade.

Os produtores de grãos orgânicos e aqueles cujo sistema de produção contemplem práticas ecológicas, como o controle biológico de pragas, tratos especiais na colheita, secagem e transportes, podem se beneficiar do pagamento de prêmios e da garantia de entrega da produção. É de se esperar, de outra parte, investimentos crescentes na pesquisa e desenvolvimento de híbridos específicos para o consumo humano, de maior teor protéico ou vitamínico, abrindo o leque de oportunidades para o empresário rural. O milho, afinal, é um cereal de elevado valor energético - justamente a principal deficiência nutricional da população brasileira de baixa renda.

Cada 100 gramas do milho em grão contêm 360 kcal, quase 20% da necessidade calórica diária de um adulto. O cereal ainda é rico em vitaminas, sais minerais e a farinha tem valor protéico equivalente ao da farinha de trigo. O fortalecimento desse segmento de mercado pode, paralelamente, consolidar uma frente que vem sendo explorada de forma pontual: o das exportações de produtos de milho para consumo humano, que agregam maior valor que o milho commodity. Terceiro maior produtor mundial do grão, o Brasil pode atender com regularidade a mercados hoje operados de forma episódica na Europa, América Latina e África. 

O incremento do consumo humano de milho é uma iniciativa que interessa a todos os elos da cadeia produtiva - um negócio que movimenta US$ 10 bilhões anuais e é o esteio de atividades da maior importância econômica para o País, como a avicultura e a suinocultura. A incorporação do milho à dieta do brasileiro vira uma nova e auspiciosa página da história do País, concorrendo para o combate ao flagelo da desnutrição, respaldado o processo de interiorização da economia e abrindo novas frentes de negócios para o empresário rural. 

Estadão